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sábado , 25 maio 2024
Ciência e Tecnologia

Sedução do Inocente: como Fredric Wertham quase matou as HQs

Sedução do Inocente: como Fredric Wertham quase matou as HQs

As histórias em quadrinhos (HQs) são uma das formas de mídia de entretenimento mais acessíveis que existe, e hoje alimentam histórias para cinema e TV que rendem bilhões aos seus respectivos estúdios, mas os gibis como mídia quase foram aniquilados 70 anos atrás, graças a uma cruzada que os relacionou a tudo de mal que existe no mundo, e que influenciam os jovens.

O selo da Comic Code Authority só foi definitivamente abandonado em 2011 (Crédito: Reprodução/acervo internet)

O selo da Comic Code Authority só foi definitivamente abandonado em 2011 (Crédito: Reprodução/acervo internet)

Você já ouviu essa ladainha antes, envolvendo smartphones e tablets, videogames e a televisão, mas o movimento anti-HQs teve amplo alcance graças ao “trabalho” de Fredric Wertham, um psiquiatra cuja pesquisa (manipulada), compilada no infame livro Sedução do Inocente, levou à instauração de uma comissão no Congresso dos EUA, e à criação do selo da Comic Code Authority, que lobotomizou as editoras, limitando o que podia ser publicado.

O movimento tocado por Wertham fez com que editoras falissem, profissionais ficassem desempregados, e os quadrinhos por décadas passassem a serem vistos, em todo o mundo, apenas como “histórias bobas para crianças”, antes que os autores e editoras começassem a se rebelar.

“HQs causam delinquência”

Antes de mais nada, é preciso entender o contexto da época. Os quadrinhos como mídia periódica surgiram em 1933, com a publicação da Funnies on Parade, considerada o precursor dos gibis. Max Gaines, idealizador do formato, foi também editor da All-American Publications, editora que posteriormente publicaria as primeiras histórias da Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Flash e Gavião Negro, e depois se fundiria à National Comics, casa do Superman e do Batman, para formar o que é hoje a DC.

As HQs de super-heróis tiveram um boom durante a Segunda Guerra Mundial, no que todos eles foram usados em histórias para incentivar o esforço de guerra, incluindo no período a criação de personagens específicos, o caso mais conhecido, o Capitão América da então Timely Comics (hoje Marvel). Passado o conflito, entretanto, os heróis não tinham uma causa para combater, e as histórias ficaram mais vagas.

O gênero começou a se diversificar, os leitores começaram a consumir histórias de detetive, comédias, romances (havia inúmeras publicações voltadas a garotas, inclusive), ficção científica, e (atenção nesta parte) crime e terror.

Em 1944, Max Gaines fundou uma nova editora, chamada Educational Comics, dedicada a publicar histórias bíblicas. Após sua morte em 1947, seu filho William assumiu, mudou o nome para Entertainment Comics, ou EC Comics, e passou a publicar histórias focadas em horror, erotismo e violência, os gêneros que mais vendiam gibis.

Uma de suas publicações mais conhecidas foi a versão original de Contos da Cripta, que contava com artistas e roteiristas de ponta, entre eles Ray Bradbury, autor de Fahrenheit 451.

Batman e Robin, Mulher-Maravilha, e as histórias de crime e terror da EC Comics, foram alvos preferenciais (Crédito: Reprodução/DC Comics/Warner Bros./Gaines estate)

Batman e Robin, Mulher-Maravilha, e as histórias de crime e terror da EC Comics, foram alvos preferenciais (Crédito: Reprodução/DC Comics/Warner Bros./Gaines estate)

Em 1952, 20 editoras publicavam cerca de 650 revistas diferentes por mês. Um a cada três periódicos vendidos nos Estados Unidos era um gibi; desses, um era de terror. Jornais, revistas de variedades, rádio, TV, não conseguiam competir em alcance, principalmente porque essas publicações eram muito baratas. E todo mundo lia.

Não demorou muito para que críticos à mídia aparecessem, mas ninguém conseguiu fazer tanto estrago quanto Fredric Wertham (1895-1981), um psiquiatra alemão, filho de trabalhadores judeus, radicado nos Estados Unidos desde 1922. Ele tinha uma boa reputação como médico progressista, que tratava a população negra do Harlem, a custos acessíveis, e seu trabalho foi importante nos movimentos pelo fim da segregação racial nos EUA.

Por outro lado, Wertham era um ferrenho crítico da cultura de massa, como o rádio e a televisão, porém, seus ataques foram mais concentrados contra as HQs, que ele considerava materiais que estimulavam a delinquência juvenil, e desencorajavam o consumo de livros, o que ele entendia como “um convite ao analfabetismo”.

Em 1948, em um artigo (cuidado, PDF) publicado na revista Collider, Wertham fez a primeira de suas correlações espúrias: como quase todos os jovens em uma instituição correcional liam gibis, ele ligou as publicações à causa da delinquência.

Em 1953, os EUA estavam vivendo o auge do Macartismo, enquanto via inimigos vermelhos em todo canto, e criou pânicos acessórios como o Perigo Lavanda, em que homossexuais não eram confiáveis, pois seriam suscetíveis a chantagens dos comunistas, ou seja, eram espiões em potencial. Não surpreende, portanto, que o Senado tenha aberto uma Subcomissão sobre a Delinquência Juvenil na mesma época, em que os alvos eram majoritariamente as HQs.

As pesquisas de Wertham, que eram todas revisadas e publicadas, se baseavam na premissa (furada) de que os quadrinhos não eram um catalisador de delinquência e violência, mas sim a raiz de tudo, e dado o seu prestígio, elas foram usadas como evidência contra os editores. No entanto, as coisas degringolaram em 1954, por dois motivos.

Dr. Fredric Wertham, um senhor picareta (Crédito: Gordon Parks)

Dr. Fredric Wertham, um senhor picareta (Crédito: Gordon Parks)

Primeiro, Wertham publicou seu livro Sedução do Inocente: A Influência dos Quadrinhos na Juventude de Hoje (jamais publicado no Brasil), em que compilou anos de estudos com jovens infratores e concluiu que, como todos liam gibis, eles eram os responsáveis por criar criminosos. No livro, o psiquiatra apontava diversos comportamentos que a sociedade de então considerava nocivos, como normalizados em suas histórias.

Foi o livro de Wertham, por exemplo, que consolidou a idealização popular de Batman e Robin como um casal homossexual, e que a representação da Mulher-Maravilha como uma mulher forte, era “uma ameaça” à constituição familiar tradicional, em que o homem é a figura central. William Moulton Marston, criador da personagem e psicólogo, também depôs na comissão, mas não conseguiu mudar a opinião dos senadores, estes alinhados com Wertham.

Segundo, a EC Comics publicou, na capa da edição #22 da revista Crime SuspenStories, um homem com um machado ensanguentado em uma mão, e a cabeça decapitada de sua esposa em outra, com os olhos revirados, algo que os senadores consideraram a gota d’água.

Chamado para depor, William Gaines respondeu aos questionamentos da seguinte forma, o que foi usado pelos jornais contra as HQs:

Conselheiro-chefe Herbert Beaser: ‘Então, você acredita que uma criança, de nenhuma maneira, pode ser afetada por algo que ela leia, ou veja?’

Gaines: ‘Eu acredito que não.’

Beaser: ‘Então não deve haver nenhum limte sobre o que você publica em suas revistas?’

Gaines: ‘Apenas sobre o que diz respeito ao bom-gosto.’

Senador Estes Kefauver (DEM/Tennessee): ‘Aqui temos uma edição do mês de maio (o senador exibe a eidição #22 da Crime SuspenStories). Isto me parece com um homem com um machado ensanguentado segurando a cabeça de uma mulher, que foi separada do corpo. Você acha que isso é bom-gosto?’

Gaines: ‘Sim, senhor, eu acho — para uma capa de uma revista de terror. Uma capa de mau-gosto, por exemplo, poderia ser definida como a cabeça da mulher ser segurada mais alto, para que o sangue escorrendo pudesse ser visto, e movendo o corpo um pouco mais para que o pescoço ensnguentado também estivesse visível.’

Kefauver: ‘Tem sangue escorrendo da boca da mulher (reedições trocaram o sangue por saliva, e a cor do sangue no machado, de vermelho para preto).’

Gaines: ‘Um pouco.’

O que os senadores não sabiam, era que a capa originalmente planejada traria todos os “elementos de mau gosto”, segundo o artista Johnny Craig.

Senador Robert C. Hendrickson (GOP/Nova Jérsei) exibe capas de revistas da EC Comics, durante audiência da subcomissão do Senado dos EUA sobre Delinquência Juvenil (Crédito: Reprodução/U.S. Senate) / hqs

Senador Robert C. Hendrickson (GOP/Nova Jérsei) exibe capas de revistas da EC Comics, durante audiência da subcomissão do Senado dos EUA sobre Delinquência Juvenil (Crédito: Reprodução/U.S. Senate)

O CCA e a lobotomização das HQs

Sabia-se que a comissão do Senado não tinha poder de censura, nem as editoras poderiam ser processadas pelo que publicavam, visto que se alguém não gostava do conteúdo das histórias, era só não comprar os gibis, mas a verdade é que a má publicidade contra a mídia, movida principalmente pelos jornais e programas de TV e rádio, por autoridades diversas, e por Wertham, que era renomado em seu meio, estava pesando contra.

O autor de Sedução do Inocente, que foi usado como base contra as HQs, não poupou críticas em seu depoimento ao Senado, e jogou bem, bem pesado:

“Hitler era um principiante quando comparado à indústria de quadrinhos. Ela conquistou as crianças muito mais cedo.”

Antes que a situação escalasse, a Associação de Revistas em Quadrinhos da América (CMAA), uma segunda cooperativa em substituição à mais antiga Associação de Editoras de Revistas em Quadrinhos (ACMP), criou o Comics Code Authority (CCA), um código de autorregulação, destinado a estabelecer o que era legal e o que não deveria ser publicado.

As regras do código diziam que o crime mostrado nas histórias não deveria gerar empatia pelo criminoso, as histórias também não poderiam criar desconfiança da polícia ou figuras de autoridade. Violência excessiva não era permitida, nem a glamourização do crime, e histórias e cenas de horror, sexo, nudez e erotismo foram todas banidas, incluindo suas “formas anormais” (S&M, conteúdo homoafetivo, etc.). Criaturas como zumbis e vampiros também foram banidas.

O Batman foi um dos que mais sofreu com histórias bobas durante a Era de Prata (Crédito: Reprodução/DC Comics/Warner Bros.) / hqs

O Batman foi um dos que mais sofreu com histórias bobas durante a Era de Prata (Crédito: Reprodução/DC Comics/Warner Bros.)

Não obstante, as histórias teriam sempre que mostrar o bem vencendo o mal, bem como indiretamente promover a “família tradicional”. Quem não se enquadrasse não teria permissão de usar o selo do CCA, que muitas livrarias, bancas e distribuidoras passaram a exigir como pré-requisito, para vender os gibis. Assim, quase todo mundo o adotou, a exceção sendo justamente a EC Comics e outras editoras/publicações focadas no horror e erotismo, com quase todas saindo do mercado, e muita gente indo para o olho da rua.

No caso da EC, a editora foi forçada a interromper suas publicações de quadrinhos em 1956, primeiro porque ninguém queria vendê-las, e segundo, Gaines e Harvey Kurtzman concentraram todos os seus esforços na instituição satírica MAD, lançada em 1952, e que por muitos anos permaneceu sendo a única publicação periódica da editora.

As editoras abordaram o uso do código de maneiras diferentes. A DC, por exemplo, publicou por anos histórias superficiais de seus heróis, do Batman ao Superman, enquanto outras procuraram focar em temas inócuos, que acabaram por infantilizar as publicações. A Timely, que usava o nome Atlas Comics na época, passou a concentrar em histórias de caubóis e monstros do espaço.

Em 1959, Martin Goodman, editor-chefe e fundador da Timely/Atlas, ordenou Stan Lee a seguir mais uma vez o fluxo e escrever histórias de super-heróis. Ele, que cogitava abandonar o meio por estar cansado de fazer sempre o que todo mundo fazia, decidiu, graças a uma sugestão de Joan, sua esposa, escrever sobre o que ele gostava, e conhecia.

O resultado foi a criação, com Jack Kirby na arte e já sob o nome Marvel Comics, do Quarteto Fantástico, uma família de heróis completamente disfuncional. Seguiram-se histórias que Lee considerava ser “o caminho mais simples”, mas que ressoavam junto aos leitores por terem sentido, e falarem a linguagem dos jovens.

Em maio de 1971, o código foi revisto após uma forçada de Lee (que sempre odiou o CCA e não ia com a cara de Fredric Wertham), ao publicar uma história do Aranha com o abuso de drogas como pano de fundo, a primeira da editora sem o selo da CCA. Meses depois, a DC fez o mesmo nas páginas de Lanterna Verde e Arqueiro Verde, mas sob o código, que se tornou menos restritivo.

A trama de Amazing Spider-Man #96-98 forçou mudanças no CCA, que permitiram a DC publicar uma história similar, sob o selo (Crédito: Reprodução/Marvel Comics/Disney/DC Comics/Warner Bros.) / hqs

A trama de Amazing Spider-Man #96-98 forçou mudanças no CCA, que permitiram a DC publicar uma história similar, sob o selo (Crédito: Reprodução/Marvel Comics/Disney/DC Comics/Warner Bros.)

Com o passar dos anos, o selo da Comics Code Authority passou a ser uma exigência informal, até que as editoras passaram a ignorá-lo a partir do século 21. A Marvel, por exemplo, o abandonou completamente em 2001, a Bongo Comics, a finada editora de Matt Groening, o largou em 2010, e a Archie Comics e a DC foram as últimas a pular fora do barco, em janeiro de 2011.

No caso da DC, o abandono do famigerado selo se deu quando os executivos da Warner impuseram à força a reestruturação conhecida como Os Novos 52, e como consequência, a CCA foi efetivamente extinta.

Wertham, o mentiroso

Embora tenha desempenhado papel importante no fim da segregação, Fredric Wertham entrou para a história como o homem que quase destruiu o mercado editorial de quadrinhos, ao estimular uma caça à bruxas contra o meio usando correlações sem causalidade. ele poderia ter dito “todos os jovens delinquentes bebem água e respiram, logo, o oxigênio é o culpado”, é a exata mesma coisa.

Não obstante, ele tentou publicar um livro complementar à Sedução do Inocente, desta vez culpabilizando a TV pela decadência juvenil, mas nenhuma editora o quis. Wertham sempre negou favorecer censura, e chegou até mesmo a publicar um último livro, com impressões positivas em relação aos fanzines.

Porém, a moral do psiquiatra, que nunca foi lá grande coisa junto ao público consumidor de quadrinhos, foi para a vala em definitivo, quando sua coleção de manuscritos se tornaram públicos em 2010. Carol Tilley, professora de Ciências da Informação da Universidade de Illinois, estudou o material e concluiu que a maioria dos dados compilados por Wertham foram forjados:

  • A quantidade de jovens entrevistados era inferior ao necessário para uma amostragem significativa;
  • Apropriação de histórias de outros psiquiatras, que ele publicou como sendo experiências próprias;
  • Muitos dos jovens problemáticos eram instáveis psicologicamente, algo que a leitura de HQs não poderia influenciar;
  • Depoimentos foram embelezados, alterados, tirados de contexto ou ignorados, de modo a reforçar o resultado esperado, endossar que HQs causavam delinquência juvenil.

Nos últimos anos de carreira, Wertham atuou como professor de psiquiatria da Universidade de Nova Iorque. Ele faleceu aos 86 anos em 1981, já aposentado, sem nunca admitir que manipulou os dados da pesquisa publicada em Sedução do Inocente.

Wertham lendo uma HQ, provavelmente um fanzine (Crédito: E.B. Boatner) / hqs

Wertham lendo uma HQ, provavelmente um fanzine (Crédito: E.B. Boatner)

Mesmo com Wertham considerando sua causa justa, o estrago de sua pesquisa no mercado de HQs é sentido até hoje, mesmo com o CCA inativo. A percepção popular de quadrinhos são uma mídia voltada apenas para crianças perdura há décadas e se alastrou pelo mundo afora, em que alguns países, como França e Alemanha, possuíam ou possuem regulações restritivas sobre o que suas histórias podem abordar.

Por fim, o último Ato de Vingança contra o trabalho de Wertham virá na ressurreição do selo EC Comics, através da editora Oni Press (Scott Pilgrim), graças a uma parceria com os controladores do espólio da família Gaines, ainda em 2024. Antes tarde do que nunca.


Por: Ronaldo Gogoni
Fonte/URL: https://meiobit.com/464103/fredric-wertham-seducao-do-inocente-comics-code-authority-historia-hqs/

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